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Literatura, mulheres e representatividade

Por José Aerton, para a coluna Por Linhas Tortas - 13/10/2021


Aqueles que torcem o nariz para a literatura e em especial para o estudo dela desconhecem o poder que ela tem de representar a sociedade em seus mais diversos setores e sua densa complexidade. A partir do texto literário somos vistos, nos vemos, nos conhecemos melhor. Essa arte desnuda-nos, revela-nos e nos permite – a partir desse límpido espelho – até mesmo encontrar meios para resolver nossas mazelas individuais e sociais. Para isso precisamos de uma relação mais íntima e mais humilde também com as páginas dos livros. É preciso deixar que a ficção envolva nossa realidade, claro sem deixar de viver essa para viver aquela. Precisamos tanto da ficção mas negamos, relutamos e perdemos com isso.

Vejamos, inicialmente, a personagem Lúcia do livro “Lucíola” de José de Alencar. Muito à frente de seu tempo, tem a coragem de romper com os padrões mais rígidos da sociedade carioca misógina do século dezenove. Enquanto prostituta, rompe paradigmas, escandaliza, causa ódio e inveja nas demais mulheres – oprimidas pelo machismo e patriarcalismo imperantes. É nesse cenário que Lúcia é tão didática, tão modelo, tão espelho e também tão denunciadora. Ela nos ensina, com a pureza de sua alma, pois consegue mesmo em meio à prostituição – para onde foi, sem escolhas, jogada, empurrada e enterrada – mostrar que não é seu labor estigmatizado o construtor do caráter de uma mulher responsável, altruísta, forte, honesta e muito determinada como ela o é.

Lembro-me do relato de uma colega professor que me contou de um evento numa escola cujos alunos deveriam levar os pais e cada um deles se apresentar falando de sua profissão. Depois que pais advogados, pedreiros, comerciários e outros mais se apresentarem levantou-se aquela senhora e disse, diante de uma plateia desconcertada, que era prostituta. Continuou informando a todos que com os ganhos de seu trabalho sustentava sozinha seu filho e mantinha sua casa. Quanta dignidade se poderia ver naquela mulher, honesta, altruísta, forte, responsável e determinada. Tal qual Lúcia da ficção. Não sei se aquela mãe digna leu a obra de José de Alencar, mas ela e a personagem têm muito a nos ensinar. Têm muito a mostrar sobre o que é dignidade, muito além das saias longas e dos discursos aos gritos nas reuniões religiosas, essas que tanto demonizam e estigmatizam qualquer um que não siga seus rituais vazios de culto a Deus.

Lúcia enfrenta todos os preconceitos, todos os olhares de despeito e desprezo que a ela são dirigidos pelas mulheres de sua época, que sem se darem conta da sofrida história daquela heroína julgam-na indigna, fútil e pecadora. Não se davam conta, as algozes daquela bela prostituta que além de sua profissão, ali estava uma mulher; alguém que se tornou mulher não apenas por nascimento e formação biológica, mas aprendeu a sê-lo com as dores que sua existência lhe impôs.

A literatura está repleta de Lucíolas mas elas têm outros nomes, Diva, Aurélia, Emma Bovary e tantas outras. A força delas tem inspirado outras ao longo dos anos e ao redor do mundo, mas pode ser bem maior essa influência. A literatura está aí, os livros fechados nada dizem, nada ensinam. Eles abertos gritam, nos representam, nos espelham. Sirvam-se, fiquem à vontade.

 

José Aerton é pernambucano, tem 49 anos e mora em Cabo Frio no Rio de Janeiro. Marido, pai e avô. Pós-graduado em Letras, atua como professor de língua portuguesa e italiana. Tem três livros publicados, dois deles de redação para o Enem e um de poesias e crônicas, segue inspirado e apaixonado pela arte da escrita. Como alimento para essa paixão, mantém a conta @joseaerton no Instagram.


 

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